Pular para o conteúdo

Cyro Martins

1908 — 1995

Médico. Psicanalista. Escritor.
Sessenta e dois anos de atividade ininterrupta nas duas vocações.

Retrato de Cyro Martins
Cyro Martins · acervo da família

Quaraí, 1908

Nasceu em 5 de agosto de 1908, em Quaraí, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, filho de Apolinário — o Bilo — e Felícia dos Santos Martins. Era uma vida de campanha, dedicada à pecuária.

Aos nove anos entrou no Colégio Municipal da cidade e teve como professor Lucílio Caravaca, que décadas mais tarde voltaria como personagem em dois de seus livros. Aos onze, deixou a campanha para o internato do Ginásio Anchieta, em Porto Alegre — experiência que ele transformaria em Um menino vai para o colégio.

Aos quinze anos publicou seus primeiros contos, sobre a vida no campo.

“escrevi por causa de um sentimento pessoal de inquietação”
— Cyro Martins, sobre a própria adolescência

Duas vocações, ao mesmo tempo

Em 1928, aos dezenove anos, ingressou na Faculdade de Medicina de Porto Alegre. No último ano do curso, em 1933, interessou-se por psiquiatria.

Formou-se em 1934 e voltou para Quaraí, para fazer o que ele chamava de “a prática da medicina” — sobretudo nos bairros e nas vilas da cidade. No mesmo ano estreou na literatura com Campo fora, um livro de contos impregnado do imaginário da campanha e da fronteira. E no mesmo ano perdeu o pai.

Ele nunca escolheu entre as duas coisas. Fez as duas, ao mesmo tempo, por sessenta e dois anos.

O gaúcho a pé

Em 1935, numa conferência, Cyro Martins usou pela primeira vez uma expressão que se tornaria o eixo da sua obra: o gaúcho a pé.

A literatura regional gaúcha até ali celebrava o homem a cavalo — o centauro dos pampas, senhor do campo aberto. Cyro Martins olhou para o outro: o peão desalojado pela cerca, pela nova ordem econômica, pela concentração da terra e pelo êxodo para a cidade. O gaúcho que perdeu o cavalo e passou a andar a pé.

Foi essa figura que ele colocou no centro de três romances, publicados ao longo de dezessete anos:

  1. 1937

    Sem rumo

  2. 1944

    Porteira fechada

  3. 1954

    Estrada nova

Juntos, formam a Trilogia do Gaúcho a Pé. A crítica literária do Rio Grande do Sul elegeu Estrada nova como o romance mais sólido do autor.

Cyro Martins integrou o grupo de romancistas da Geração de 30, ligado ao neorrealismo — tanto pela temática quanto pela linguagem. Foi responsável por introduzir na literatura regional do estado o tipo gaúcho já transformado pelos novos costumes.

Buenos Aires

Em 1951, com quarenta e três anos, uma carreira estabelecida e três romances publicados, Cyro Martins foi para Buenos Aires.

Não havia formação psicanalítica no Rio Grande do Sul. Para se formar, era preciso sair.

Na Sociedade Psicanalítica Argentina, foi analisado por Arnaldo Rascovsky. Teve como professores Angel Garma, León Grinberg, Enrique Pichon-Rivière, Arminda Aberastury e Heinrich Racker — a geração que fundou a psicanálise na América Latina. Foi supervisionado por Pichon-Rivière e por Alvarez Toledo.

Voltou em 1955, membro da Associação Psicanalítica Argentina.

Cyro Martins no período da formação em Buenos Aires · imagem a confirmar em Galeria Virtual do CELPCYRO ou no arquivo da família, mediante autorização.

O que ele fundou ao voltar

Em 1956, junto com Mário Martins, José Lemmertz e Celestino Prunes, fundou o Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre.

O grupo foi reconhecido pela International Psychoanalytical Association em 1961. Em 1963 tornou-se a Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, que Cyro Martins presidiu de 1965 a 1969.

Em 1957, começou a dar aula no Instituto de Psicanálise.

Em 1964 publicou Do mito à verdade científica — o primeiro livro de psicanálise publicado em Porto Alegre.

Ele precisou ir embora para se formar.
Voltou e construiu o lugar onde se forma.

Também fundou ou presidiu

  • Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal — participou da fundação, 1939
  • Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Neurocirurgia — presidente, 1957
  • Sociedade de Psiquiatria de Porto Alegre — membro fundador e presidente por dois mandatos
  • Sociedade de Medicina Psicossomática de Porto Alegre — fundador
  • Primeiro Congresso Brasileiro de Psicanálise — presidente
  • Instrutor assistente de neurologia na Faculdade de Medicina, 1946 a 1948

Onde as duas margens se encontram

As duas vocações não corriam em paralelo. Elas se encontravam.

Em 1969, Cyro Martins publicou na Revista Brasileira de Psicanálise um ensaio sobre Diadorim — a personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Literatura lida com o instrumental da psicanálise.

Era isso que ele chamava de humanismo psicanalítico, título de um livro seu de 1973. E é isso que explica por que a instituição que leva o seu nome estuda, até hoje, literatura e psicanálise juntas.

  • Do mito à verdade científica1964
  • A criação artística e a psicanálise1970
  • Perspectivas do humanismo psicanalítico1973
  • Orientação educacional e profilaxia mental1974
  • Rumos do humanismo médico contemporâneo1977
  • Perspectivas da relação médico-paciente1979

A vida, ano a ano

Trinta marcos entre Quaraí e Porto Alegre. Avance pela linha do tempo.

Formação

1908

Nasce em Quaraí, em 5 de agosto

01 / 37

19082008
  1. 1908Nasce em Quaraí, em 5 de agosto
  2. 1917Colégio Municipal de Quaraí, com o professor Lucílio Caravaca
  3. 1920Interno no Ginásio Anchieta, em Porto Alegre
  4. 1923Publica os primeiros contos, aos quinze anos
  5. 1928Ingressa na Faculdade de Medicina de Porto Alegre
  6. 1934Forma-se em medicina · estreia com Campo fora · perde o pai
  7. 1935Casa com Suely de Souza · usa pela primeira vez a expressão gaúcho a pé
  8. 1937Estuda neurologia no Rio de Janeiro · publica Sem rumo
  9. 1938Concurso para a psiquiatria do Hospital São Pedro
  10. 1939Participa da fundação da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal · Enquanto as águas correm · abre o primeiro consultório
  11. 1942Mensagem errante e Um menino vai para o colégio, em plena Segunda Guerra
  12. 1944Porteira fechada
  13. 1946Instrutor assistente de neurologia na Faculdade de Medicina
  14. 1949Casa com Zaira Meneghello
  15. 1951Vai a Buenos Aires para a formação psicanalítica
  16. 1954Estrada nova, que fecha a trilogia
  17. 1955Retorna, membro da Associação Psicanalítica Argentina
  18. 1956Funda o Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre
  19. 1957Preside a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Neurocirurgia · começa a lecionar no Instituto de Psicanálise · Paz nos campos
  20. 1961O grupo é reconhecido pela International Psychoanalytical Association
  21. 1963Nasce a Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre
  22. 1964Do mito à verdade científica, primeiro livro de psicanálise publicado em Porto Alegre
  23. 1965Assume a presidência da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, até 1969
  24. 1969Ensaio sobre Diadorim, de Guimarães Rosa
  25. 1976Rodeio, recriando a infância na campanha
  26. 1978Homenageado pelos setenta anos por amigos, médicos, escritores e historiadores
  27. 1979Sombras na correnteza, em que o pai vira personagem
  28. 1986Homenageado especial da 32ª Feira do Livro de Porto Alegre
  29. 1988O professor, aos oitenta anos · amigos criam o Prêmio Literário Cyro Martins
  30. 1990Para início de conversa, memórias em parceria com Abrão Slavutzky
  31. 1991Um sorriso para o destino, última ficção
  32. 1993Caminhos, ensaios psicanalíticos
  33. 1994Páginas soltas, sobre seus amigos poetas, pintores e ficcionistas
  34. 1995Falece em Porto Alegre, em 15 de dezembro, aos 87 anos
  35. 1997A família cria o CELPCYRO, em novembro
  36. 2007O acervo pessoal passa a integrar o Delfos, na PUCRS
  37. 2008Centenário de nascimento

A estante

Ficção

  • Campo foracontos1934
  • Sem rumoromance1937
  • Enquanto as águas corremromance1939
  • Um menino vai para o colégionovela1942
  • Mensagem errante1942
  • Porteira fechadaromance1944
  • Estrada novaromance1954
  • Paz nos camposcontos e novelas1957
  • A entrevistacontos1968
  • Rodeiocontos e estampas1976
  • Sombras na correntezaromance1979
  • A dama do saladeirocontos1980
  • O príncipe da vilanovela1982
  • Gaúchos no obeliscoromance1984
  • Na curva do arco-írisromance1985
  • O professorromance1988
  • Um sorriso para o destinonovela1991
  • Você deve desistir, Osvaldocontos2000· póstumo

Ensaio e obra científica

  • Do mito à verdade científica1964
  • A criação artística e a psicanálise1970
  • Perspectivas do humanismo psicanalítico1973
  • Orientação educacional e profilaxia mental1974
  • Escritores gaúchos1976· ver nota
  • Rumos do humanismo médico contemporâneo1977
  • Perspectivas da relação médico-paciente1979
  • O mundo em que vivemos1983
  • A mulher na sociedade atual1984
  • Para início de conversa1990· com Abrão Slavutzky
  • Caminhos1993
  • Páginas soltas1994

A obra completa está no catálogo da Editora Movimento.

Conflito de fonte: Escritores gaúchos aparece como 1976 na síntese do CELPCYRO e como 1981 na Wikipédia. A confirmar com a família antes de publicar.

O acervo

O acervo pessoal de Cyro Martins está no Delfos — Espaço de Documentação e Memória Cultural, na Biblioteca Central da PUCRS, aberto à pesquisa desde 2007.

Estão lá os manuscritos, as correspondências, as fotografias e os livros. E também os objetos: os prêmios, o quadro-retrato, o abajur.

E o divã.

Acervo Cyro Martins · Delfos, PUCRS

O divã e os objetos do acervo pessoal · imagem a confirmar em Acervo Cyro Martins no Delfos, PUCRS, mediante autorização.

O que continua

Em novembro de 1997, dois anos depois da morte dele, Zaira Meneghello e os filhos Maria Helena, Cecília e Cláudio, acompanhados de amigos, médicos e escritores, criaram o Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins. A ideia foi de Maria Helena.

Em 2008, no ano do centenário, o CELPCYRO recebeu o Prêmio Fato Literário.

A Associação de Psiquiatria Cyro Martins leva o seu nome e, desde 2015, mantém um programa que forma médicos especialistas em psiquiatria, em Porto Alegre. São 8.640 horas ao longo de três anos, acreditadas pela Associação Brasileira de Psiquiatria.

Ele saiu de Porto Alegre em 1951 porque aqui não se podia aprender psicanálise. A instituição que leva o seu nome forma psiquiatras nesta cidade há dez anos.

“Não se preocupe: se ocupe.”
A frase que ele dizia à filha Maria Helena quando ela se preocupava com o destino da obra dele.

Um infinito recomeçar da criação.

— Cyro Martins

Esta página pode continuar.

Se a família quiser acrescentar fotografias, lembranças ou textos, há espaço reservado para isso. É só nos enviar.

Fontes

  • Síntese biobibliográfica de Carlos Jorge Appel · CELPCYRO
  • Verbete de Germano Vollmer Filho · Dicionário Internacional de Psicanálise
  • Delfos — Espaço de Documentação e Memória Cultural · PUCRS
A Instituição